
Fui apanhado por teus fulgores. A noite lapidava seus
ossos para a grande estréia.
Fetiches descarnados anunciavam a entrada no delírio. Estavas vestida
com uma pele inesgotável em suas quedas. Um clímax de ruínas
que faziam de ti o despojo mais cobiçado do ritual. E tua voz na celebração
das imagens, a gravitação de enigmas vorazes, o olhar concentrado
de todos em tuas palavras, o cenário convertido em sombras dos sentidos
que buscavas reproduzir em tua leitura. Ouvir-te assim, meu amor, tornou-me
um trota-mundos de ti, o teatro repleto de tua voz, a taça esvaziada
do silêncio à tua espera. Porém o palco repleto de vícios,
os crimes litúrgicos, as vítimas ressequidas, o explícito
canibalismo. Como pude amar-te tanto, em um segundo apenas, e logo ser devorado
pelo terror de tua presença? A transgressão é fascinante
também para aqueles que têm por profissão evitá-la.
Quem ousa separar na arte o que é clemência ou bestialidade? Distinguir
doçura e selvageria em tua voz, de que serve? Cuido de tudo com discrição.
Espero que todos esvaziem o camarim e rogo por tua confiança, que dispenses
as algemas. Porém a caminho da delegacia ainda me indago – não
a ti, não a ti – o que diabos fizemos para tornar isto possível.
E parece que a ninguém mais no mundo isto importa.
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arte: hélio rola / poema: floriano martins
fortaleza é nossa debilidade
02/04/2005